Hideout Music Digest #0
The Raveonettes – Pretty in black (Sony, 2005)
Quando o Raveonettes foi formado, Sharin Foo mal sabia segurar o baixo. Agora, com o segundo álbum da banda, Pretty in black, editado por uma major do porte da Sony, a moça ganhou uma banda inteira de apoio e, ao lado do companheiro Sune Rose, pôde finalmente dedicar-se somente às melodias e aos arranjos vocais.
Em grande medida, Pretty in black espanta as reincidentes comparações com Jesus and Mary Chain e apresenta um Raveonettes pra lá de revivescente. Os vocais suaves - quase sensuais -, os timbres e a afinação das guitarras, mixadas com pouquÃssima pompa, situam o álbum em algum perÃodo perdido da história do rock, embolado em referências à cultura pop dos anos 50 e 60. Janis Martin, Elvis, Turtles, Shangri-las, Beatles, Nico, ou mesmo algum representante da autêntica country-music norte-americana, entram em estúdio para gravar, com a tecnologia de hoje, a trilha de um longa noir. Excelentes momentos, como a cadeia dos vocais em “You say you lie”, com uns assobiozinhos elétricos, ou os riffs prolongados de “Sleepwalking”, se não chegam a arrebatar, ao menos divertem os fãs da banda. Bom disco, com momentos de acerto que escapam à sua própria média.
Sennen – Periphery (Zabel, 2004)
Se é verdade que não estamos mais no auge da onda post-rock, não se pode dizer o mesmo da qualidade de alguns dos representantes tardios do gênero. Sennen, com alguns truques tomados da matemática e um pouco das distorções anárquicas shoegazing, é grande exemplo disso. Que não se confunda a formação holandesa com os ingleses de mesmo nome: a banda aà de cima toca post-rock elegante, assentado, apesar de outros discretos recursos, em guitarra, baixo e bateria. Periphery, pequeno EP de apenas 3 faixas, é audição contÃnua; a mixagem do disco torna a transição entre as músicas quase imperceptÃvel.
“Hidenburg” inaugura a sessão derramando as experimentações da banda, numa espécie de marcha fúnebre. Hindenburg foi um zepelim-metáfora do fracasso nazista. Tendo partido da terra natal, o dirigÃvel explodiu nos ares de Lakehurst, em Nova Jersey, em maio de 1937. Na seqüência, “Periphery, welcome us all” repete seqüências crescentes de dedilhados e estoura em guitarras estridentes, com aquele som que algumas pessoas preferiram apelidar de “sônico”. “How peaceful life would be without love and joy”, tÃtulo curioso, esconde uma melodia dividida em fases, com feedbacks enxutos, locuções mecanizadas e pingos de um xilofone econômico – a faixa só acontece de fato quando as guitarras marcham ao ritmo da forte marcação da bateria e amontoam-se em volumosas distorções.
For Against – December (Words on Music, 2005)
December, originalmente editado em 1988, é o segundo e, ao lado de Shelflife, mais aclamado álbum do For Against, uma das principais referências do pop americano independente da década de 80. Surpreendentemente, a banda, que, segundo o site da gravadora, permanece até hoje em atividade, é ainda uma novidade para grande parte do público brasileiro. E digo “surpreendentemente” porque: primeiro, a banda é americana; segundo, a música deles, em tempos de glorificação da década que me viu nascer, é hit para qualquer pista de dança. Mas vamos lá: December dá continuidade ao som registrado pela banda em Echelons, disco que estreou o grupo um ano antes. Com isso, quero dizer que as linhas de baixo são protuberantes, que as guitarras declaram culto a Joy Division e Chamaleons, que as letras são um tanto soturnas e, finalmente, que os vocais anunciam que o pop será sempre música da garotada. “The effect” e “December” são as favoritas.
thebrotherkite – thebrotherkite (Clairecords, 2005)
O único disco do septeto de Providence foi reeditado pela Clairecords em agosto, tamanha a rapidez com que teve sua primeira tiragem esgotada. Apesar de pouco comentado, thebrotherkite compila algumas das melhores passagens do pop feito com guitarras altas e distorcidas.
The Brother Kite – à s vezes grafado assim, à s vezes todo junto, em caixa baixa – é sigla shoegaze, mas avança sobre referências mais barulhentas, o que também lhe garante comparações com um ou outro grupo post-punk. O vocal distante, em dicção americana, fica bem mais seco que os similares ingleses. As harmonias são simples, mas não impedem que as guitarras desenhem, em duas ou três camadas, melodias convergentes. “Godnight, godnight, godnight” introduz o repertório com uma melodia esticada, bem familiar. “Simply say my name”, apesar de soar como a faceta mais indie-rock da banda, não perde de vista as distorções e os efeitos de pedais que denunciam as preferências do grupo. A música é bem, bem bonita. Chamam a atenção também, pelo ritmo acelerado e pela intensidade dos acordes, “Porcelain” e “Death Ray”. A faixa que fecha o disco, “The way that you came down”, bem poderia ter resultado de uma jam com Boo Radleys e Rollerskate Skinny, dianteira da trupe etérea que povoou a cena independente no começo da década passada. Aliás, e não sei se interessará a alguém, Éter era o nome do deus grego que, desdobramento do Caos, traduzia as propriedades da luz e do ar – qualquer semelhança, portanto, não terá sido coincidência ;)
Explosions in the sky – The Rescue (Temporary Residence Limited, 2005)
Esse disco faz parte da coleção ‘Travels in constant’, do selo Temporary Residence, com sede no inquieto Brooklin, em Nova York. Os itens dessa coleção não estão à venda em lojas e só podem ser comprados via internet. A contribuição do Explosions in the sky para o projeto é extraordinária; o disco inteiro é lindo demais, desses trabalhos que engrandecem o pop e contornam muitas das crÃticas a que freqüentemente está exposto.
Aos que não conhecem, Explosions in the sky é um quarteto instrumental de Austin, herdeiro da experimentação inaugurada pelo legendário Durutti Column. Rescue, quarto álbum da banda, é uma pequena e modesta sinfonia, dividida em 8 dias longos (as faixas são todas nomeadas como “Day one”, “Day two” etc.), compridos, executados em movimentos variados. As composições são ricas em detalhes: acordes e dedilhados suaves, sonzinhos cristalizados, tilintares, percussão acústica, bases eletrônicas, coros, teclados e distorções monitoradas, tudo em espantosa harmonia. É difÃcil sugerir por onde começar, mas “Day One” e “Day Five” abrem bem o caminho, pode testar.
Tamborines – s/t (Decadent, 2005)
Faz já uns 4 anos desde que a banda lançou, pela Midsummer Madness, o ep Dressed up to better feel the sun. Na ocasião, causaram certo frisson pela competência com que criavam composições influenciadas pelo pop-rock ensolarado dos anos 60. Competência que, aliás, lhes asseguraria participação na coletânea “Songs we learned in Texas”, organizada pelo selo Planting Seeds Records. Pois que, depois de um longo hiato, quando já era de se imaginar que a banda abandonara a diversão, é possÃvel redescobrir um Tamborines reformado, e duas novas composições, no myspace.com. E que gratificante reencontro: o som da banda, antes predominantemente eletro-acústico, ganhou cores com distorções menos mansas e melodias mais dançantes. São duas faixas, “What you took so long” e “The great division”, ambas presentes no single com lançamento previsto na Inglaterra e nos EUA. A atmosfera sessenteira segue junto do grupo, mas os arranjos de guitarra já não deixam dúvida em relação à contemporaneidade do, agora, trio. Agradável surpresa.
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Rodrigo Maceira
Manolo and the punks é a banda que nunca tive. Mariscado, o livro que nunca publiquei.




